Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Achados no baú (4)

A crónica que hoje fui buscar ao meu baú esforça-se, mais uma vez, por separar o trigo do joio, ou seja, pretende distrinçar da forma o mais objectiva possível os traços mais e menos positivos de uma dado músico, recusando ao mesmo tempo a prática da idolatria como forma e exercício da análise crítica.

  Em observação está hoje - ou melhor: estava em 1 de Abril de 2000, dia em que este texto foi publicado no (então) suplemento DNMais do Diário de Notícias - uma edição sumptuosa e em muitos aspectos indispensável de uma série de gravações de Wynton Marsalis realizadas no Village Vanguard, esse famoso clube de Nova Iorque.


 

 

Marsalis über Alles

 

Ele aí está, Wynton, na plenitude das suas contradições, alimentando certezas aos seus fiéis e atenuando reservas aos seus críticos

 
Despertando regra geral discussões apaixonadas, provocando fracturas na comunidade jazzística, com a intromissão das sempre apressadas e subjectivas divisões entre adeptos conotados como «conservadores» ou «progressistas» - mas impondo-se, sem dúvida, como um tema de discussão eminentemente ligado às concepções relativas ao presente e ao futuro do jazz -, a discografia mais recente [2000] de Wynton Marsalis tinha de aqui merecer espaço condigno, numa tentativa de averiguar, retocar ou confirmar ideias sobre o que de mais e menos positivo se pode assacar, nesta fase da sua carreira, ao trompetista e chefe de orquestra mais badalado do jazz actual.
 
No que toca ao activo do seu transbordante labor, é imperioso sublinhar (independentemente dos termos precisos em que ele tem sido desenvolvido) o papel decisivo que Wynton Marsalis desempenhou e desempenha numa renovada chamada de atenção para o jazz: através da sua «missão» na direcção artística do projecto Jazz at Lincoln Center de Nova Iorque (desde 1987); no incentivo ao surgimento de muitos instrumentistas novos, estimulados pelo exemplo de uma carreira de sucesso profissional e mediático; em outras actividades ligadas à docência e à divulgação do jazz na televisão e na rádio; ou, ainda, na indesmentível força das suas convicções, patente em várias entrevistas concedidas a publicações da especialidade.
 
No passivo da sua actividade, julgo poder sobretudo sublinhar, nos últimos vinte anos [2000], precisamente a arrogância e auto-suficiência com que por vezes exibe essas convicções, a par de certas opções estéticas do instrumentista, do compositor e do chefe de orquestra, em geral tocadas por um sempre presente e legítimo desejo de evocar e respeitar a grande tradição do jazz (personificada pelos seus mestres maiores) mas também pelo excessivo apego (quando não mimetismo, próximo da clonagem) face aos processos criativos dessas referências históricas.
 
Não deixa, aliás, de ser significativo que, encerrando um ano [2000] particularmente fecundo em obras discográficas, a sua editora Columbia tenha agora publicado uma obra gigantesca na qual ficaram preservadas algumas sessões gravadas ao vivo com o seu septeto no Village Vanguard - uma edição que constitui, ela mesma, um sintoma evidente da clara megalomania que marca a personalidade de Wynton Marsalis.
 
Projecto e repertório
 
Consubstanciado numa caixa de 7 CDs (1), a que é acrescentado um CD bónus, este projecto recolhe, números redondos, 50 faixas musicais extraídas de um conjunto de material gravado em quatro séries de actuações do grupo de Marsalis no histórico clube de Nova Iorque: Março, 1990; Julho, 1991; Dezembro, 1993; Dezembro, 1994
 
 
Subvertendo uma possível apresentação cronológica, estas sessões são-nos devolvidas com uma nova arrumação, agrupadas que estão em imaginários sete dias da semana, de segunda a domingo, cada um deles tendencialmente dedicado a uma temática específica - por exemplo, «blues», «standards», «sortidos» ou «obras de fôlego», etc. - num alinhamento e montagem disfarçados pela mistura dos aplausos entre os vários números.
 
São três as formações dirigidas pelo trompetista: comuns a todas elas, temos Wessell Anderson (sax-alto e sopranino), Wycliff Gordon (trombone) e Herlin Riley (bateria); presentes na maioria das faixas, estão Victor Goines (sax-tenor, soprano, clarinete), Eric Reed (piano) e Reginald Veal (contrabaixo); e intervindo nas bandas mais antiga e mais recente, Marcus Roberts (piano) e Todd Williams (sax-tenor, soprano e clarinete) ou Ben Wolf (contrabaixo).
 
Esta recolha discográfica tem a particularidade muito positiva de nos dar um panorama interessante, completo e diversificado das grandes fixações de Marsalis quanto às obras a que está mais ligado afectiva e esteticamente, assim reflectindo o que de mais relevante (e também mais inconsequente) existe nesse seu já vasto acervo musical. Por um lado, a par de meia dúzia de temas compostos pelos seus companheiros de septeto, temos em menor grau algumas escolhas já tradicionais de Marsalis quanto aos standards do grande repertório apropriado pelo jazz, como Cherokee, Embraceable You ou Stardust, alguns deles em mais do que uma versão.
 
Depois, encontramos repertório pertencente já ao domínio do próprio jazz, como é o caso de várias obras-chave de Thelonius Monk, Ellington ou Strayhorn.
Finalmente, da extensa trajectória composicional de Wynton Marsalis, podemos voltar a recordar peças incontornáveis dos primeiros e mais prometedores tempos da obra do trompetista - e que, com altos e baixos, se podem encontrar, quanto a mim, em álbuns como Black Codes, The Majesty of the Blues ou Levee Low Moan - a par de obras mais pretenciosas e grandiloquentes, com frequência assaltadas por um auto-convencimento sem limites, como In The Sweet Embrace of Life, independentemente da maestria da escrita, ou Citi Movement, embora aqui bem mais convincente e poderosa do que na versão original.
 
Os resultados
 
Um pouco ao arrepio do que é habitual, adiante-se, desde já, uma primeira conclusão. Confirmadas, embora, algumas das impressões desfavoráveis que a obra de Wynton Marsalis quase sempre (me) despertou, é impossível ficar indiferente ao poder de atracção que a sua música exerce sobre o ouvinte – ou porque o trompetista aqui demonstra a sábia capacidade de tornar aparentemente simples aquilo que é mais complexo ou porque, no caso particular desta caixa, é transparente uma muito maior espontaneidade, gosto pelo risco e pela aventura (e, portanto, superior verdade artística) do que nos trabalhos de estúdio
marcados por perfeccionismos quantas
vezes estéreis.
 
Mas esta não é uma qualidade superficial, proveniente apenas de um estado de espírito porventura diverso com que o músico se apresenta «ao vivo» frente ao público. Ela está intrinsecamente ligada à qualidade superior de certos espécimes musicais daí resultantes.
 
Exemplos? Seguindo a ordem de audição, o solo fabuloso do trompetista na primeira versão de Embreacable You (por contraste com o cardápio de efeitos instrumentais que caracteriza a sua segunda versão no disco 4 ou o enjoativo tratamento de Stardust); a transcendência da composição e arranjo de Black Codes ou Sometimes It Goes Like That, com os consequentes reflexos na configuração, intensidade e emoção dos solos e marcando claras diferenças em relação a obras convencionais mais recentes de Marsalis; a escrita avançada e complexa para blues exigentes (e disfarçados) como Down Home With Honey ou Jig’s Jig; a entrega e o risco instrumental em peças como The Cat In The Hat Is Back, Four In One, The Arrival ou The Majesty Of The Blues; a deliciosa simplicidade e ausência de artifícios em Bona & Paul ou Winter Wonderland; o swing impressionante de Play The Blues And Go.
 
Finalmente, para além da esmagadora maestria instrumental de Marsalis, é indispensável não deixar sem referência os excelentes desempenhos de Wessel Anderson e Eric Reed e, sobretudo, de Victor Goines, sem esquecer a novidade e originalidade de Marcus Roberts na formação nº. 1.
(in DNMais, ex-suplemento do DN, 01.04.2000)

(1) Wynton Marsalis Septet
Live at The Village Vanguard
(Cx. 8 CDs)
Columbia / Sony Music
****
 
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 08:53
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